Entre cerca de 541 e 520 milhões de anos atrás, o registro fóssil passa a exibir animais abundantes com conchas, esqueletos, membros articulados, olhos, intestinos e modos de vida variados. Essa radiação cambriana é chamada de explosão, mas a metáfora engana: ocupou dezenas de milhões de anos e tinha raízes em organismos ediacaranos pequenos e moles.

Corpos viram instrumentos ecológicos

Mares cambrianos abrigavam trilobitas, esponjas, vermes, braquiópodes, moluscos, cordados primitivos e parentes basais de grupos modernos. Organismos escavavam sedimentos, filtravam água, pastavam tapetes microbianos, caçavam, consumiam carcaças e se defendiam. Predação provavelmente favoreceu armaduras, mobilidade, sentidos e comportamento; essas inovações mudaram o ambiente de outras espécies.

Depósitos excepcionais como Chengjiang e Burgess Shale preservam tecidos moles normalmente perdidos. Suas formas estranhas não são rascunhos fracassados. Algumas são ramos extintos; outras reúnem características próximas à base de grupos vivos.

Por que naquele momento?

Nenhum gatilho basta sozinho. Mais oxigênio pode ter sustentado corpos ativos. Mudanças químicas favoreceram esqueletos mineralizados. Redes genéticas do desenvolvimento permitiram variação anatômica. Escalada ecológica ampliou inovações. Continentes, clima e habitats também mudaram. As hipóteses se complementam.

Relógios moleculares indicam divergências anteriores aos fósseis cambrianos conspícuos. Uma linhagem pode existir antes de ficar abundante, mineralizada, grande ou preservada num ambiente amostrado.

O registro cambriano combina diversificação biológica e transformação do próprio arquivo de preservação.

Nem todo filo moderno apareceu pronto

Organismos cambrianos não devem ser forçados em categorias atuais. Membros iniciais de uma linhagem frequentemente não têm especializações adquiridas depois. Paleontólogos distinguem grupos-tronco, fora da coroa viva mas ligados à sua ancestralidade, de grupos-coroa, que incluem o último ancestral comum dos membros vivos e todos os descendentes.

A radiação mostra a evolução construindo ecossistemas por experimentação ramificada. Seu resultado não foi um catálogo fixo de planos corporais, mas oceanos nos quais animais passaram a moldar as possibilidades uns dos outros.